Migas Gatas Alentejanas com Bacalhau

Migas Gatas Alentejanas com Bacalhau
Foto meramente ilustrativa de Cristina Sinogas

A história das Migas Gatas é curta nas palavras e longa na memória — nasce da fome, cresce na astúcia e fica na tradição do Alentejo. 🌾🔥

Origem e contexto

  • Surgem no Alentejo rural, entre ceifeiros e pastores.
  • Era comida de subsistência: pão duro + azeite + alho + água quente. O que houvesse, entrava.
  • “Gatas” não é gato no prato: é o modo de fazer migas húmidas, quase “a gatinhar” na colher, nem secas nem moldadas.

Porquê o bacalhau?

  • O bacalhau era o peixe que chegava ao interior: salgado, resistente ao tempo e às distâncias.
  • Cozia-se o bacalhau; a água da cozedura virava ouro líquido para amaciar o pão.
  • As lascas juntavam proteína ao prato pobre. Economia que vira engenho.

Como eram feitas “à antiga”

  • Nada de frigideiras modernas: alguidar de barro ou tacho de ferro.
  • Azeite quente perfumado com alho; pão regado aos poucos com a água do bacalhau.
  • Mexer, apertar, soltar — até ficar rústico e húmido. Simples, sem maquilhagem.

Significado cultural

  • É cozinha de escassez transformada em identidade.
  • Prato de partilha: uma colher grande, várias mãos.
  • Hoje é património afetivo — come-se para lembrar quem fomos.

Em suma: as Migas Gatas não nasceram para impressionar; nasceram para aguentar a vida. E ainda hoje, quando fumegam na mesa, aquecem o estômago e a saudade ao mesmo tempo. 🍞🐟✨

🍽️ A RECEITA

Migas gatas com bacalhau: pão velho que vira ouro,
azeite que canta na panela e memória que aquece as mãos. 🥖🐟🔥
Quem é que cresceu com isto à mesa?

🛒 Ingredientes

🥖 400 g de pão alentejano duro (esfarelado)
🐟 2 postas de bacalhau demolhado
🧄 4 dentes de alho
🫒 1 dl de azeite (bom, do que cheira a campo)
🧅 1 cebola pequena (opcional, à moda de casa)
🌿 1 folha de louro (opcional)
💧 Água quente q.b.
🧂 Sal e pimenta q.b.

👨‍🍳 Preparação (à moda antiga)

1️⃣ Bacalhau em lascas
Coze o bacalhau, escorre e lasca em pedaços grandes.
Reserva a água da cozedura — aqui mora o segredo do sabor.

2️⃣ Alho no azeite
Num tacho largo ou alguidar de barro, aquece o azeite e aloura ligeiramente os alhos (e a cebola, se usares).
Cuidado: é perfume, não é queimado.

3️⃣ Pão a acordar
Junta o pão esfarelado e vai regando aos poucos com a água quente do bacalhau.
Mexer, apertar, soltar. O pão bebe a história toda.

4️⃣ Bacalhau entra em cena
Envolve as lascas de bacalhau nas migas.
Ajusta sal e pimenta. As migas ficam gatas: húmidas, rústicas, sem secar, sem vergonha.

5️⃣ Descanso e servir
Tapa 2–3 minutinhos para casar sabores.
Serve quente, com colher grande e coração aberto.

Foto meramente ilustrativa de Cristina Sinogas