Alka-Seltzer. O copo que fazia “Fssssss” e resolvia os excessos da comida Alentejana

Alka-Seltzer. O copo que fazia “Fssssss” e resolvia os excessos da comida Alentejana

Ainda me lembro daquele som.

Depois de um almoço mais puxado, de uma açorda bem temperada, umas carnes de porco ou daqueles domingos em que a mesa se prolongava pela tarde, alguém lá em casa dizia:

“Vai buscar um Alka-Seltzer, que isto hoje caiu-me pesado.”

💧 Alka-Seltzer — O Copo Que Fazia “Fssssss” e Parecia Resolver os Excessos da Mesa

E aparecia aquele frasco comprido.

Tiravam-se os comprimidos, metiam-se num copo com água e começava imediatamente o espetáculo:

Pssssss… fssssss…

Nós, miúdos, ficávamos a olhar para aquelas bolhinhas como se fosse uma experiência de laboratório.

Quando acabava de efervescer, o adulto pegava no copo e bebia-o de uma vez.

Naquele tempo, para muita gente, Alka-Seltzer era simplesmente “aquilo para a má disposição depois de comer demais”.

Mas a história começa muito longe do Alentejo.


🇺🇸 Nasceu nos Estados Unidos em 1931

O Alka-Seltzer foi lançado nos Estados Unidos em 1931 pela Miles Laboratories, empresa sediada em Elkhart, no estado de Indiana. A própria Bayer, que mais tarde adquiriu a Miles, assinala 1931 como o início do produto.

A ideia surgiu no final dos anos 1920. Segundo a história divulgada pela Bayer, o presidente da Miles Laboratories interessou-se por uma preparação usada durante um período de gripe e daí nasceu o desenvolvimento de uma versão efervescente que pudesse ser comercializada de forma prática.

O produto tornou-se rapidamente reconhecível por uma coisa que dispensava explicações:

dois comprimidos dentro de água e uma enorme efervescência.


🧪 Mas afinal, o que havia dentro daqueles comprimidos?

A fórmula clássica juntou três componentes principais:

ácido cítrico,
bicarbonato de sódio,
e aspirina — ácido acetilsalicílico.

Quando o ácido cítrico e o bicarbonato entram em contacto com a água, ocorre a reação responsável pelas famosas bolhas.

Na formulação atual norte-americana do Alka-Seltzer Original, cada comprimido contém ácido cítrico anidro, bicarbonato de sódio e 325 mg de aspirina. Os dois primeiros funcionam como antiácidos e a aspirina como analgésico.

Por isso não era apenas “água com bicarbonato”.

Havia ali também um medicamento para a dor.


🍽️ “Isso é da comida, bebe um Alka-Seltzer…”

Na minha memória, aparecia sobretudo depois das grandes refeições.

Natal.

Páscoa.

Matança do porco.

Um casamento.

Ou simplesmente aquele almoço de domingo em que uma pessoa dizia que só queria “provar um bocadinho” e acabava a repetir três vezes.

O rótulo atual indica o produto para alívio temporário de situações como azia e indigestão ácida quando acompanhadas de dor de cabeça ou dores no corpo, além de indisposição associada a excessos de comida ou bebida.

Mas na linguagem das casas era muito mais simples:

“Estou empanturrado.”

E lá vinha o copo.


📻 Uma publicidade que entrou na cultura popular

Nos Estados Unidos, o Alka-Seltzer tornou-se também um fenómeno publicitário.

A marca ficou ligada ao famoso som dos comprimidos a cair no copo e à expressão publicitária “Plop, plop, fizz, fizz”, que ajudou a transformar um medicamento comum num produto reconhecido por gerações. A Bayer recorda ainda a personagem publicitária “Speedy Alka-Seltzer”, muito conhecida nos primeiros tempos da televisão americana.

Não era preciso mostrar grande coisa.

Um copo.

Dois comprimidos.

Bolhas.

E toda a gente percebia.


🏭 E como chegou às mãos da Bayer?

Há aqui uma curiosidade histórica.

O Alka-Seltzer não foi criado pela Bayer.

Foi criado pela Miles Laboratories.

Só em 1978 a Bayer adquiriu a Miles Laboratories nos Estados Unidos, passando assim a integrar no seu grupo uma empresa que já tinha o Alka-Seltzer como um dos produtos mais conhecidos.

Em 1995, a Miles Inc. acabaria por passar a chamar-se Bayer Corporation nos Estados Unidos.

Ou seja:

Alka-Seltzer nasceu Miles… e muitos anos depois tornou-se Bayer.


🕰️ Um frasco que também ficou na memória

Hoje olho para aqueles frascos antigos da fotografia e lembro-me de uma época em que a pequena farmácia doméstica cabia numa gaveta.

Algodão.

Álcool.

Mercurocromo.

Uma caixa de aspirinas.

E muitas vezes um tubo de Alka-Seltzer.

Não havia pesquisas no telemóvel para cada sintoma.

Havia o conselho da mãe, da avó, do farmacêutico e aquilo que já se usava em casa há anos.

Nem tudo nesse tempo era melhor — e a medicina evoluiu justamente porque aprendemos mais sobre benefícios, riscos e utilização correta dos medicamentos.

Mas alguns sons ficaram.

E o do Alka-Seltzer a desaparecer dentro de um copo de água é um deles.

“Ploc… fssssss…”

Para quem viveu aquela época, bastava ouvir aquilo para saber que alguém tinha abusado ao almoço.


⚠️ Uma curiosidade importante que muita gente esquece

O Alka-Seltzer Original contém aspirina, portanto não é simplesmente um antiácido inofensivo. A rotulagem atual inclui advertências relacionadas, entre outras, com hemorragia gastrointestinal e com a utilização de aspirina por crianças e adolescentes com sintomas de gripe ou varicela devido ao risco de síndrome de Reye.

Por isso, recordar o produto é uma coisa; utilizá-lo atualmente deve ser feito de acordo com a embalagem e aconselhamento adequado.