QUEM SE LEMBRA DE JOGAR À MACACA NO RECREIO?

QUEM SE LEMBRA DE JOGAR À MACACA NO RECREIO?

🟦 O jogo da macaca — quando um pedaço de giz transformava o chão num mundo inteiro

Durante décadas, bastava um pedaço de giz, um pouco de chão livre e algumas crianças para começar uma das brincadeiras mais populares dos recreios e das ruas portuguesas: o jogo da macaca. A imagem mostra precisamente esse momento, com uma criança concentrada no percurso desenhado no chão enquanto as outras aguardam a sua vez. Era uma brincadeira simples, mas exigia equilíbrio, atenção e alguma habilidade.

Primeiro desenhava-se a macaca no chão. Faziam-se quadrados numerados, normalmente em sequência, com algumas casas lado a lado. Depois escolhia-se uma pequena pedra, uma carica ou outro objeto que servisse de marcador. Cada jogador lançava-o para uma das casas e tinha de percorrer o desenho aos saltos, evitando pisar a casa ocupada e sem tocar nas linhas.

Parecia fácil, mas não era.

Era preciso saltar num só pé, manter o equilíbrio, avançar casa a casa e ainda baixar-se para apanhar a pedra sem cair. Quando chegavam as casas duplas, havia um pequeno descanso: um pé em cada quadrado. Depois voltava a concentração.

Se alguém pisasse uma linha, perdesse o equilíbrio ou atirasse a pedra para fora da casa certa, passava a vez.

E logo começava a discussão:

— Pisaste a linha!

— Não pisei nada!

— Pisaste, sim!

As regras podiam mudar de escola para escola e até de rua para rua. Nalguns sítios jogava-se apenas até ao último número. Noutros, era preciso regressar sem erros. Havia também variantes em que a última casa tinha nomes como “céu”, “casa” ou “descanso”.

O mais curioso é que praticamente não era preciso nada para brincar. O chão podia ser de cimento, pedra ou terra. O giz aparecia muitas vezes vindo da escola, mas, quando não havia, improvisava-se com um pedaço de tijolo, pedra branca ou qualquer coisa que deixasse marca.

Nos recreios, o desenho podia durar vários dias. Quando a chuva apagava as linhas, voltava-se a fazer tudo de novo.

Para muitas crianças, a macaca era também um pequeno desafio pessoal. A primeira dificuldade era conseguir fazer todo o percurso sem cair. Depois começava a competição para ver quem completava mais rápido, quem acertava melhor com a pedra ou quem conseguia jogar sem tocar em linha nenhuma.

E havia sempre espectadores.

Os colegas ficavam ao lado, esperando pela vez, comentando cada salto e torcendo para que o jogador errasse para poderem entrar rapidamente no jogo.

Durante grande parte do século XX, brincadeiras como esta fizeram dos pátios escolares e das ruas verdadeiros espaços de convivência. Não existiam equipamentos sofisticados. O brinquedo era muitas vezes criado pelas próprias crianças e desaparecia ao fim do dia com uma simples varridela.

Mas enquanto durava, bastava.

Bastava para criar regras.

Bastava para haver competição.

Bastava para encher um recreio de risos.

Hoje, a macaca ainda é conhecida e continua a aparecer em escolas e parques, mas já não ocupa o mesmo espaço que teve na infância de outras gerações.

A fotografia recorda precisamente esse tempo.

Um tempo em que um desenho no chão podia valer mais do que muitos brinquedos.

Porque, para começar uma aventura, bastavam alguns quadrados, uma pedra e alguém a perguntar:

— Quem joga agora?