QUEM SE LEMBRA DE SALTAR À CORDA NA RUA?
🪢 Saltar à corda — quando bastava uma rua e três crianças para começar a brincadeira
A imagem retrata uma cena simples e profundamente ligada à infância de outras gerações: três crianças a brincar ao jogo da corda, ao fim da tarde, numa rua tranquila. Duas seguram as extremidades da corda e fazem-na rodar, enquanto a terceira salta ao centro, procurando acompanhar o ritmo sem tropeçar. Era uma brincadeira comum em muitas terras portuguesas e fazia parte do quotidiano de quem cresceu a brincar na rua.
Não era preciso quase nada para começar.
Uma corda suficientemente comprida, duas crianças para a segurar e outra com vontade de saltar.
Depois vinham as regras, quase sempre inventadas ou adaptadas pelo próprio grupo. Havia quem saltasse sozinho, quem entrasse com a corda já em movimento e quem tentasse colocar duas ou três crianças ao mesmo tempo no centro.
O mais característico eram as lengalengas.
Enquanto a corda batia no chão num ritmo certo, cantavam-se versos que ajudavam a marcar os saltos. Algumas lengalengas passavam de geração em geração; outras mudavam de aldeia para aldeia ou de escola para escola. Bastava uma criança começar a cantar para as restantes saberem exatamente quando tinham de entrar, sair ou acelerar o salto.
A brincadeira exigia mais habilidade do que parecia.
Era preciso calcular o momento certo em que a corda passava pelos pés, manter o equilíbrio e não perder o ritmo. Quando alguém tocava na corda, esta parava imediatamente e vinha a sentença:
— Agora és tu a dar!
E trocavam-se os lugares.
Quem tinha acabado de saltar passava para uma das pontas, enquanto outra criança entrava para o meio.
Durante grande parte do século XX, sobretudo nas aldeias, vilas e bairros com pouco trânsito, a própria rua funcionava como parque infantil. As crianças saíam de casa e encontravam os amigos à porta. Não havia necessidade de combinar horários ou marcar encontros. Bastava ouvir vozes na rua para perceber que a brincadeira já tinha começado.
Ao fim da tarde, estas cenas tornavam-se ainda mais comuns.
A escola já tinha terminado, os trabalhos de casa estavam feitos — ou pelo menos assim se dizia aos pais — e ainda havia alguma luz antes do jantar. Era a hora ideal para saltar à corda, jogar ao berlinde, ao pião, à macaca ou simplesmente correr.
Também havia competição.
Quem conseguia dar mais saltos sem falhar?
Quem aguentava mais tempo?
Quem conseguia saltar mais depressa?
E quem sabia aquelas lengalengas enormes sem se enganar?
As crianças aprendiam umas com as outras. Não havia instruções escritas. A mais velha do grupo explicava, demonstrava e os mais pequenos imitavam. Era assim que a brincadeira passava de geração em geração.
Hoje sabemos também que saltar à corda ajuda a desenvolver coordenação, equilíbrio, resistência e ritmo. Mas naquele tempo ninguém pensava nesses benefícios.
Brincava-se porque era divertido.
E isso bastava.
Com o passar dos anos, muitas ruas deixaram de ser espaços seguros para este tipo de jogos. O trânsito aumentou, os hábitos mudaram e grande parte das brincadeiras passou para dentro de casa ou para espaços próprios.
Mas fotografias como esta conseguem trazer de volta um som que muita gente ainda reconhece:
a corda a bater ritmadamente no chão.
Tac.
Tac.
Tac.
E no meio desse som, as vozes das crianças a cantar e a contar os saltos.
Era uma brincadeira simples.
Mas para quem viveu esse tempo, bastava uma corda para transformar o fim da tarde numa memória que duraria uma vida inteira.
CREDITOS : RECEITAS DA TIA ADELINA
