O Alfaiate de Antigamente e as suas Costureiras
Ainda me lembro bem das oficinas de alfaiate de antigamente. Entrava-se e ouvia-se logo o trabalhar das máquinas de costura, o bater das tesouras grandes em cima da mesa e aquelas conversas baixas das mulheres enquanto cosiam. Havia linhas de todas as cores, moldes de papel, tecidos dobrados, fitas métricas ao pescoço e pedaços de pano espalhados por todo o lado. O alfaiate andava de um lado para o outro, sempre muito direito, a tirar medidas, a marcar bainhas, a experimentar casacos e a dizer às costureiras onde era preciso apertar mais um bocadinho ou soltar uma costura.
Eu ainda trabalhei alguns tempos a ajudar numa oficina assim. Era nova, teria uns dezasseis ou dezassete anos, e comecei pelas coisas mais simples. Alinhavar, pregar botões, fazer casas e descoser aquilo que tinha ficado mal. A máquina de costura metia-me respeito. Era daquelas de pedal, em que uma pessoa tinha de acertar o movimento dos pés com as mãos. Se nos distraíssemos, a linha enrolava-se, a agulha partia ou a costura fugia para onde não devia. E depois lá vinha a senhora mais velha dizer: “Desmancha isso e faz outra vez, que a cliente não paga para levar torto.”
🧵 O Alfaiate de Antigamente e as Costureiras — quando a roupa era feita para durar
Naquele tempo, muita roupa não se comprava feita. Ia-se ao alfaiate ou à modista. O homem queria um fato para um casamento, para a missa, para uma festa ou simplesmente para ter um fato bom guardado no armário. Escolhia o tecido, tiravam-lhe as medidas e começava o trabalho. Primeiro cortava-se o pano em cima daquela mesa grande. Depois alinhavava-se tudo à mão e fazia-se a primeira prova. O cliente vestia o casaco ainda cheio de linhas provisórias e o alfaiate ia puxando daqui, marcando dali, espetando alfinetes e olhando para os ombros e para as mangas. Nada saía da oficina sem várias provas.
As mulheres faziam muito do trabalho mais minucioso. Pregavam forros, faziam acabamentos, acertavam bainhas, cosiam bolsos e punham botões. Havia algumas com uma habilidade que parecia impossível. Pegavam numa peça de tecido e, passado algum tempo, aquilo começava a parecer roupa de verdade. Muitas trabalhavam horas seguidas, sentadas, com os olhos muito perto do pano. Ao fim do dia doíam as costas e a vista já cansava, mas ainda se ouvia alguém dizer: “Só mais esta manga e vou-me embora.”
Também se consertava muita roupa. Um casaco passava de um irmão para outro. Umas calças eram apertadas, depois alargadas, depois remendadas. Um fato podia durar anos e anos. Quando gastava nos cotovelos, punha-se um remendo bem feito. Quando as calças rompiam, aproveitava-se tecido por dentro. Deitar roupa fora era quase sempre a última opção. Primeiro tentava-se salvar.
Lembro-me de uma vez uma senhora ter levado um casaco do marido já falecido. Queria que o transformássemos para servir ao filho. O alfaiate olhou para aquilo durante muito tempo, desmanchou costuras, aproveitou o tecido e fez o que pôde. Quando o rapaz vestiu o casaco já arranjado, a mãe ficou calada, só a passar a mão pela manga. Ninguém disse grande coisa. Mas percebeu-se tudo.
Talvez seja essa a parte que hoje já quase não existe.
A roupa não era apenas roupa.
Tinha história.
Um fato podia ter estado num casamento, num batizado, numa fotografia de família e depois passar para outra pessoa.
E quem o tinha feito conhecia cada costura.
Hoje entra-se numa loja, escolhe-se um tamanho e leva-se. É mais rápido e mais barato em muitos casos. Mas naquela época havia outra ligação às coisas. Uma peça demorava dias a fazer e, talvez por isso, era estimada durante anos.
Quando vejo uma fotografia como esta, quase consigo ouvir novamente as máquinas de pedal, as tesouras em cima da mesa e as mulheres a conversar enquanto trabalhavam.
E ainda me parece ouvir o alfaiate dizer:
— Não tenha pressa. Roupa bem feita não se faz a correr.
