QUEM SE LEMBRA DOS TIRADORES DE CORTIÇA DE ANTIGAMENTE?

QUEM SE LEMBRA DOS TIRADORES DE CORTIÇA DE ANTIGAMENTE?

Ainda me lembro de ver os tiradores de cortiça entrarem no montado logo pela manhã, antes de o calor apertar. Iam com o chapéu na cabeça, a roupa de trabalho já marcada por outros verões e o machado corticeiro bem afiado na mão. Aquilo não era trabalho para qualquer homem. Quem olhasse de fora podia pensar que bastava cortar a casca e puxar. Não bastava. Era preciso conhecer o sobreiro, perceber onde abrir, onde parar e, sobretudo, ter mão certa para não ferir a árvore.

O primeiro golpe era sempre dado com atenção. O machado entrava apenas na cortiça, nunca onde não devia. Faziam-se os cortes verticais e depois os horizontais, desenhando no tronco as partes que haveriam de sair. O segredo estava ali: se o ferro chegasse à “mãe”, à parte viva por baixo da cortiça, podia deixar uma ferida séria no sobreiro. Um bom tirador sabia quase pela resistência do machado até onde podia ir. Era força, sim, mas era principalmente experiência.

🌳 Tiradores de Cortiça — homens que sabiam ouvir o sobreiro antes de lhe tocar

Depois vinha uma das partes que mais me impressionava. Com o cabo do próprio machado, preparado para esse serviço, começavam a separar a cortiça do tronco. Devagar, sem arrancar à bruta. E quando o trabalho estava bem feito, saíam grandes pranchas inteiras, algumas tão compridas que era preciso outro homem para as receber. O tronco ficava claro, quase nu, com aquela cor viva que depois iria escurecendo com o tempo.

Havia homens que subiam aos ramos grossos como se estivessem a andar no chão. Agarravam-se onde podiam, equilibravam-se com uma segurança que só os anos de trabalho davam e iam tirando cortiça em sítios onde eu, só de olhar, já sentia as pernas fraquejarem. Não havia plataformas, nem máquinas a levantar ninguém. Havia braços, pernas, uma escada quando fazia falta e muito cuidado.

E ninguém queria estragar um sobreiro.

Um sobreiro não era uma árvore para usar uma vez e esquecer. Era património da herdade. Depois da tiragem precisava de anos para voltar a formar uma camada de cortiça com espessura suficiente. Por isso, um homem que ferisse demasiadamente a árvore não era considerado bom no ofício. O verdadeiro tirador deixava o sobreiro preparado para continuar vivo e produzir novamente.

Lembro-me de um mestre antigo, daqueles homens de poucas palavras, que antes de começar batia com a parte de trás do machado na cortiça e olhava para o tronco em silêncio. Um rapaz novo perguntou-lhe um dia o que estava a fazer.

Ele respondeu:

Estou a perguntar à árvore se já quer largar o casaco.

Nós rimos.

Mas ele não estava propriamente a brincar.

Quem fazia aquilo há muitos anos aprendia a perceber quando a cortiça se separava melhor, como reagia ao corte e quando era preciso ter mais cuidado. Havia conhecimento ali que não vinha de livro nenhum. Passava de homem para homem, de mestre para aprendiz.

Ao meio-dia, o montado ficava cheio de pranchas de cortiça empilhadas. Os homens procuravam a sombra de um sobreiro, abriam o saco da comida e lá aparecia o pão, o queijo, o chouriço, as azeitonas e o garrafão da água. Comiam depressa porque ainda havia muito trabalho pela frente.

E depois voltavam.

Machado.

Corte.

Separar.

Puxar.

Baixar a prancha.

Árvore após árvore.

No fim do dia, as mãos estavam doridas e a camisa colada ao corpo. Mas ficava para trás um montado inteiro com os troncos descortiçados e montes de cortiça à espera de serem transportados.

Hoje há mais regras, mais equipamento e mais conhecimento técnico, e ainda bem. Mas uma coisa não mudou: tirar cortiça continua a exigir precisão e respeito pela árvore.

Porque o tirador de cortiça não é apenas o homem que tira a casca de um sobreiro.

É o homem que tem de saber tirar a cortiça sem tirar vida à árvore que lha dá.

CREDITOS: Texto e imagens: https://receitasdatiaadelina.com/