LISBOA DE ANTIGAMENTE — QUEM SE LEMBRA DE BEBER ÁGUA NOS VELHOS FONTANÁRIOS?
💧 Lisboa de antigamente: quando um fontanário servia pessoas, cavalos, cães… e matava a sede das crianças
Há imagens que parecem simples à primeira vista, mas que acabam por contar muito mais do que um momento isolado. Nesta fotografia, uma mulher ajuda uma criança a beber água num antigo fontanário-bebedouro de ferro fundido da Sociedade Protectora dos Animais, numa Lisboa em que estes equipamentos faziam parte do quotidiano das ruas e tinham uma função muito mais importante do que hoje podemos imaginar.
O fontanário, associado à Sociedade Protectora dos Animais, fundada em 1875, terá sido doado por Júlio d’Andrade em 1882. A sua estrutura em ferro fundido revela bem a preocupação da época em criar pontos de abastecimento de água que servissem não apenas as pessoas, mas também os animais que circulavam pela cidade. Cavalos usados em carroças e transportes, cães e outros animais podiam beber nas bacias inferiores, algumas delas concebidas em formato de concha.
A cena da criança é particularmente expressiva. A mulher abre a torneira e ajuda o pequeno a aproximar-se da água. Não há garrafa de plástico, cantil moderno ou máquina automática. Há apenas um fontanário público e a água que corre diretamente para quem dela precisa. Para muitas crianças daquele tempo, beber num chafariz ou fontanário durante uma caminhada pela cidade era perfeitamente normal.
Lisboa dependia muito mais destes pontos públicos do que atualmente. Havia famílias que viviam em casas com condições bastante modestas e, em certas zonas e períodos, o acesso fácil a água canalizada dentro das habitações estava longe de ser universal. Chafarizes e fontanários podiam, por isso, assumir um papel importante no abastecimento quotidiano e tornavam-se naturalmente lugares de passagem e encontro.
Era comum ver gente aproximar-se com cântaros, bilhas ou outros recipientes. Os adultos enchiam-nos para levar água, os miúdos aproveitavam para beber e os animais encontravam também ali algum alívio, sobretudo nos dias quentes. A mesma estrutura podia assim servir diferentes necessidades de uma cidade que ainda convivia intensamente com a tração animal.
O próprio desenho do bebedouro ajuda a perceber essa realidade. A parte superior servia o utilizador humano, enquanto as bacias mais baixas permitiam o acesso dos animais. Tudo estava pensado para uma rua onde pessoas, cães, cavalos, carroças e, mais tarde, automóveis partilhavam o mesmo espaço.
A presença dos carros na imagem torna-a ainda mais interessante. É quase como observar duas Lisboas ao mesmo tempo. De um lado está um equipamento criado numa época em que os cavalos eram fundamentais para a mobilidade urbana. Do outro surgem já os automóveis, sinal de uma cidade que se modernizava e começava a abandonar gradualmente esse antigo modo de vida.
Também a inscrição no alto do fontanário chama a atenção. Não se tratava apenas de fornecer água. Existia uma preocupação explícita com o bem-estar animal, algo significativo numa época em que milhares de animais eram utilizados diariamente no transporte de pessoas e mercadorias.
Para quem vive hoje numa cidade onde basta abrir uma torneira dentro de casa ou comprar uma garrafa em qualquer esquina, pode ser difícil perceber a importância destes equipamentos. Mas para gerações anteriores, uma fonte pública não era decoração: era serviço, necessidade e parte da vida diária.
A fotografia preserva exatamente esse instante.
Uma mulher.
Uma criança com sede.
Uma torneira.
E um velho fontanário que tinha sido colocado na rua para cumprir uma missão muito simples: dar água a quem precisasse, tivesse duas pernas ou quatro.
Hoje podemos passar por estruturas semelhantes sem lhes prestar atenção. Mas cada uma delas guarda histórias de pessoas que ali beberam, encheram cântaros, conversaram com vizinhos e deram água aos animais que ajudavam Lisboa a funcionar.
Mais do que ferro fundido, estes fontanários são pedaços da memória quotidiana da cidade.
