O Polícia Sinaleiro. Quando o trânsito obedecia a um homem no meio da rua

O Polícia Sinaleiro. Quando o trânsito obedecia a um homem no meio da rua

Ainda me lembro bem daquele tempo em que, nas cidades e vilas mais movimentadas, o trânsito não dependia de semáforos em cada esquina. Havia o polícia sinaleiro, de pé numa pequena plataforma, no meio da rua, com a farda bem composta, luvas claras e uma presença que metia respeito. Bastava levantar um braço, virar o corpo ou fazer um gesto firme e os carros paravam. Não havia buzinas a reclamar, nem condutores a discutir por tudo e por nada. Quem vinha ao volante percebia logo quem mandava naquele cruzamento.

Quando eu era rapaz, aquilo fazia-me uma impressão danada. Ficava a olhar para o homem lá em cima, direito que nem uma vara, a controlar carros, camionetas, bicicletas e peões quase sem dizer uma palavra. Parecia que tinha olhos em todo o lado. Uns avançavam, outros paravam, os peões atravessavam, e ele ia organizando tudo apenas com os braços e um apito. Às vezes, quando o movimento apertava, ouvia-se aquele assobio seco no meio do barulho dos motores, e toda a gente percebia que alguém tinha feito asneira.

🚦 O Polícia Sinaleiro — quando o trânsito obedecia a um homem no meio da rua

Lembro-me de uma vez, já lá vão muitos anos, ter ido com um familiar a uma cidade grande. Parámos num cruzamento e eu, miúdo, perguntei para que servia aquele homem em cima de uma caixa às riscas. A resposta foi simples: “É ele que põe isto tudo em ordem.” E era mesmo. Não havia computador, sensores nem câmaras. Havia atenção, treino e autoridade. Um gesto mal feito podia baralhar toda a rua, por isso aqueles homens tinham de estar concentrados durante horas, ao sol, ao frio e à chuva.

No verão, imagino o calor que deviam apanhar dentro daquela farda. No inverno, ficavam expostos ao vento e à água enquanto os outros passavam dentro dos carros. E, mesmo assim, mantinham-se direitos, atentos e firmes. Em muitos locais, as pessoas acabavam por conhecer o polícia que fazia sempre aquele cruzamento. Já sabiam a cara, a maneira de apitar e até os gestos próprios dele.

Também havia situações curiosas. Um peão mais distraído avançava antes do tempo e lá vinha logo um gesto de mão a mandá-lo recuar. Um automobilista tentava passar quando não devia e o polícia ficava a olhar para ele de uma maneira que dispensava grandes explicações. Naquele tempo, muitas vezes bastava um olhar da autoridade para acabar a conversa.

Hoje, os semáforos fazem quase todo esse trabalho. Acendem o vermelho, o verde e o amarelo sem se cansarem e sem apanharem chuva. É mais prático, mais rápido e mais seguro em muitos contextos. Mas perdeu-se aquela figura humana no centro da rua, a comandar o movimento como se fosse o maestro de uma orquestra feita de carros, autocarros, bicicletas e pessoas.

Uma fotografia como esta traz de volta uma época inteira. O pedestal às riscas, o capacete, as luvas, o apito e aquela postura rígida eram parte da paisagem urbana de outros tempos.

E quem viveu essa época ainda se lembra bem:

quando o polícia sinaleiro levantava a mão, até a rua parecia prender a respiração.

CREDITOS DA https://receitasdatiaadelina.com/