O Guarda-Soleiro e Amolador
Ainda me lembro bem daqueles homens que apareciam pelas ruas da vila com uma caixa de ferramentas, meia dúzia de varetas, arame, pedaços de tecido e uma paciência que hoje quase já não se encontra. Cá pelo Alentejo chamávamos-lhes muitas vezes guarda-soleiros, porque remendavam guarda-chuvas e guarda-sóis, mas muitos faziam também de amoladores, afiando facas, canivetes e tesouras. Não tinham oficina bonita nem montra. A oficina era onde houvesse sombra: à porta de uma casa, debaixo de uma varanda ou sentado num degrau, como o homem desta fotografia. Bastava abrir o guarda-chuva estragado, olhar para as varetas e dizer: “Isto ainda tem arranjo.” E quase sempre tinha. Endireitava uma vareta, substituía outra, cosia o pano rasgado, apertava o mecanismo e o que parecia perdido voltava a abrir e fechar como devia.
Lembro-me de um que aparecia lá na nossa rua de tempos a tempos. A gente sabia que ele vinha antes mesmo de o ver. Ouvia-se ao longe aquele som característico do amolador, agudo e comprido, que atravessava as ruas e fazia as mulheres aparecerem às portas com uma faca numa mão e umas tesouras na outra. A minha mãe dizia logo: “Vai chamar o homem antes que ele passe.” Lá ia eu a correr. Enquanto afiava as facas, sentava-se junto à parede e conversava sobre tudo: se tinha chovido pouco, se a seara vinha fraca, se havia trabalho nas herdades ou se a vida estava cada vez mais cara. Depois pegava numa faca que quase não cortava pão e devolvia-a tão afiada que a minha mãe avisava logo: “Agora tenham cuidado com isto.” Por poucas moedas, aquele homem deixava a cozinha preparada para mais uns meses e ainda conseguia salvar um guarda-chuva que já tinha sobrevivido a meia dúzia de invernos.
☂️ O Guarda-Soleiro e Amolador — quando até um guarda-chuva velho merecia outra vida
E havia nisso uma maneira de viver que hoje praticamente desapareceu. Naquele tempo não se deitava fora só porque estava torto, roto ou sem corte. Primeiro chamava-se alguém que soubesse reparar. Um guarda-chuva passava de pai para filho, umas tesouras podiam durar décadas e uma boa faca era cuidada como uma ferramenta de trabalho. Não era apenas pobreza, como às vezes hoje se diz. Era também respeito pelo que se tinha e pelo trabalho de quem sabia consertar. Aqueles homens carregavam muito mais do que ferramentas: carregavam um ofício aprendido durante anos, feito de olho, mão e experiência.
Hoje compra-se um guarda-chuva por pouco dinheiro e, quando parte uma vareta, quase ninguém pensa em mandá-lo arranjar. As facas são substituídas, as tesouras vão para uma gaveta e os velhos ofícios vão desaparecendo em silêncio. Mas quem viveu esse tempo ainda se lembra daquele homem sentado no passeio, rodeado de guarda-chuvas desmontados, varetas, ferramentas e lâminas. O guarda-soleiro não fazia milagres. Fazia uma coisa talvez ainda mais rara: fazia durar.
