A Patrulha da GNR dos anos 60. Quando dois guardas a pé conheciam uma terra inteira!
Ainda me lembro bem daqueles tempos em que a GNR aparecia pelas estradas e caminhos sem carros atrás, sem rádios sofisticados e sem grandes meios.
Muitas patrulhas faziam-se a pé, quilómetros e quilómetros, debaixo do sol alentejano no verão e do frio de rachar no inverno.
Os guardas iam direitos, farda bem composta, botas engraxadas e a arma ao ombro. Quando apareciam ao fundo da estrada, toda a gente sabia imediatamente quem vinha.
👮♂️ A Patrulha da GNR dos anos 60 — quando dois guardas a pé conheciam uma terra inteira
Na aldeia conheciam quase toda a gente pelo nome.
Sabiam quem morava em cada monte, quem tinha animais, quem andava pelas herdades e até qual era o rapaz mais atrevido da terra.
Não era preciso telefone para perguntar muita coisa. Bastava parar numa venda ou junto de uma fonte e, em poucos minutos, já sabiam o que se tinha passado.
Lembro-me do meu avô contar que, certa tarde, dois guardas chegaram à nossa zona depois de terem percorrido vários quilómetros a pé.
Estava um calor daqueles em que até as cigarras parecem cansadas.
Pararam debaixo de uma árvore grande, tiraram os chapéus por uns instantes e pediram água numa casa próxima.
A mulher trouxe-lhes um cântaro fresco e dois copos.
Beberam devagar, agradeceram e continuaram caminho.
Não estavam ali de passeio. Tinham ainda várias casas e montes para visitar antes de regressarem ao posto.
Naquele tempo, a presença de uma patrulha mexia logo com a rua.
Os miúdos que andavam a fazer alguma asneira desapareciam.
Os homens endireitavam-se quando os guardas passavam.
E havia sempre alguém que baixava a voz e dizia:
— Olha, aí vêm os guardas.
Também havia respeito misturado com receio.
A autoridade sentia-se de outra maneira.
Ninguém precisava de levantar muito a voz para perceber que havia regras a cumprir.
Mas aqueles homens também conheciam a dureza da vida no interior.
Passavam pelos campos, falavam com pastores, trabalhadores rurais e gente dos montes isolados.
Muitas vezes eram das poucas autoridades que chegavam regularmente a lugares onde quase nada chegava.
As patrulhas percorriam estradas de terra, atalhos e caminhos que hoje mal conseguimos imaginar fazer a pé durante horas.
Quando anoitecia, ainda podiam estar longe do posto.
E lá seguiam.
Passo atrás de passo.
Hoje olhamos para uma fotografia assim e vemos dois homens fardados numa estrada.
Mas quem viveu aquele tempo vê muito mais.
Vê a poeira dos caminhos, o silêncio das aldeias a meio da tarde, as vendas antigas, os montes afastados e aquele cumprimento que se ouvia sempre quando a patrulha passava:
— Boa tarde, senhores guardas.
E eles respondiam:
— Boa tarde.
Depois continuavam estrada fora.
Devagar.
Porque naquele tempo uma patrulha não atravessava apenas a terra — fazia parte da vida dela.
