QUEM SE LEMBRA DO PORQUEIRO, OU GUARDADOR DE PORCOS, DE ANTIGAMENTE?

QUEM SE LEMBRA DO PORQUEIRO, OU GUARDADOR DE PORCOS, DE ANTIGAMENTE?

🐖 O Porqueiro — o homem que conhecia cada porco pelo andar

Quando eu era rapaz, cá no Alentejo, havia homens que passavam mais horas com os animais do que com gente. Um deles era o porqueiro, ou guardador de porcos, como também lhe chamávamos. Saía cedo, muitas vezes ainda com a manhã fria, o chapéu enterrado na cabeça, umas botas fortes e um saco com qualquer coisa para comer. Depois seguia com a vara de porcos pelos campos, devagar, sempre de olho nos animais. Não era simplesmente deixá-los andar. Era preciso conhecer o terreno, saber onde havia água, onde podiam pastar, onde se encontrava bolota e, sobretudo, perceber quando algum animal começava a afastar-se demasiado do resto.

Lembro-me de um homem lá da terra a quem chamavam o Ti Manuel. Não sei se conhecia os porcos todos pelo nome, mas parecia conhecer cada um pelo feitio. Havia um que fugia sempre para o mesmo lado, outro que era mais lento e um grande que não gostava que ninguém se chegasse demasiado perto. O Ti Manuel não precisava de correr atrás deles a toda a hora. Bastava um assobio, uma voz mais grossa ou bater com o cajado no chão e a vara começava a juntar-se. Eu ficava admirado com aquilo. Se fosse eu, ao fim de cinco minutos já tinha metade dos bichos espalhados pela herdade.

No outono e no inverno era quando eu mais gostava de os ver pelos montados. Os porcos iam debaixo das azinheiras e dos sobreiros à procura do que encontravam no chão, e o porqueiro seguia atrás sem grandes pressas. Mas não pensem que aquilo era vida descansada. Andava quilómetros todos os dias. Apanhava frio, chuva, vento e lama. No verão, quando tinha de acompanhar animais por terrenos mais secos, apanhava aquele sol alentejano que parece cair a direito sobre a cabeça. E muitas vezes estava sozinho durante horas.

🐖🌳 QUEM SE LEMBRA DO PORQUEIRO, OU GUARDADOR DE PORCOS, DE ANTIGAMENTE?

Ao meio-dia procurava uma sombra, se houvesse. Sentava-se numa pedra ou encostava-se ao tronco de uma azinheira, tirava do saco um pedaço de pão, queijo, chouriço ou toucinho e comia ali mesmo. A água vinha numa bilha ou numa garrafa embrulhada para aguentar fresca mais algum tempo. Não havia restaurante, não havia carrinha de apoio nem horário certo para parar. O relógio do porqueiro eram os animais. Se estavam sossegados, ele descansava. Se algum se afastava, lá tinha de se levantar novamente.

Também havia dias mais complicados. Um porco magoava-se, outro desaparecia por entre o mato, outro teimava em não acompanhar a vara. E quando anoitecia era preciso ter a certeza de que regressavam todos. Perder um animal era assunto sério. Aquilo representava dinheiro e sustento para quem tinha os porcos. Por isso o guardador aprendia a contar quase sem contar. Dava uma olhadela e percebia logo se faltava algum.

O Ti Manuel costumava dizer:

Porco não fala, mas diz muita coisa a quem sabe olhar para ele.

Na altura eu ria-me. Hoje percebo o que queria dizer.

Aquele homem sabia quando um animal estava doente pelo modo como andava. Sabia se tinha comido bem, se estava assustado ou se algum temporal se aproximava pela maneira como a vara se comportava. Era conhecimento que não vinha dos livros. Vinha de anos e anos a observar.

Ao fim da tarde, quando regressava, via-se ao longe a poeira levantada pelos animais. O porqueiro vinha atrás, cansado, com as calças sujas de terra e o cajado na mão. Chegava ao curral, ajudava a fechar os porcos e só depois dava o dia por terminado.

Ninguém fazia grande festa por aquele trabalho.

Era mais um homem a cumprir a sua obrigação.

Mas hoje, quando vejo uma fotografia destas, penso quantas horas aqueles homens passaram sozinhos pelos campos e quanto sabiam de animais, árvores, caminhos e estações do ano.

O porqueiro não era apenas um homem atrás dos porcos.

Era quem os guiava, os protegia e garantia que, ao cair da noite, voltavam todos para casa.