JÁ ADUBASTE A PANELA?” QUEM SE LEMBRA DE OUVIR ISTO?
🥘 “Já adubaste a panela?” — quando adubar também queria dizer temperar a comida
Há palavras antigas que desaparecem devagar, não porque deixem de existir nos dicionários, mas porque deixam de ser ditas dentro de casa. “Adubar” é uma delas. Hoje, quando se fala em adubo, quase toda a gente pensa imediatamente na agricultura, nos campos e nos produtos usados para tornar a terra mais fértil. Mas, em muitas famílias portuguesas, sobretudo nas gerações mais antigas, a palavra também entrava pela porta da cozinha.
Era perfeitamente possível ouvir uma mãe ou uma avó perguntar à filha, enquanto a panela fervia ao lume:
— Já adubaste a panela?
Não queria saber se alguém tinha colocado fertilizante na sopa, evidentemente. Queria perguntar se a comida já estava temperada, se tinha levado o sal necessário, o azeite e os restantes condimentos que lhe davam gosto. Uma sopa sem esse “adubo” podia alimentar, mas faltava-lhe aquilo que os antigos resumiam numa palavra simples: sabor.
A expressão fazia especialmente sentido numa cozinha onde quase nada era medido. Não havia balanças digitais, colheres medidoras ou receitas seguidas ao grama. A cozinheira sabia pela experiência. Punha um pouco de sal, provava o caldo, acrescentava azeite e tornava a provar. Às vezes bastava uma erva aromática, um dente de alho ou umas gotas de azeite no final para “adubar” aquilo que estava sem graça.
A imagem dos antigos anúncios de Nitrato do Chile, um fertilizante que se tornou conhecido entre agricultores portugueses, ajuda hoje a criar uma associação quase imediata entre a palavra “adubo” e a terra. O famoso produto seria utilizado para fornecer nutrientes às culturas e aumentar a produtividade agrícola. Mas a ideia de fertilizar os campos é muito anterior aos adubos químicos industriais: durante séculos utilizaram-se estrumes, restos orgânicos e outras matérias para enriquecer os solos.
Na cozinha, porém, o sentido era outro e muito mais saboroso.
Uma panela “bem adubada” era uma panela bem temperada.
E havia nisso uma lógica muito própria da linguagem popular. Assim como se dava à terra aquilo que lhe faltava para produzir melhor, também se acrescentava à comida aquilo que lhe faltava para saber bem. O mesmo verbo acabava por servir dois mundos fundamentais da vida rural portuguesa: a terra que dava os alimentos e a cozinha que os transformava em comida.
Imagine-se uma cozinha antiga num dia de inverno. A panela de sopa ao lume, talvez com feijão, couves e batata. A avó aproxima-se, levanta a tampa, prova uma colher e faz logo aquela cara de quem descobriu o problema:
— Isto ainda está por adubar.
Entrava mais uma pitada de sal, um fio de azeite ou qualquer tempero guardado para aquele prato. Mexia-se novamente.
Agora sim.
E ninguém precisava de uma receita escrita para perceber o que tinha acontecido.
Hoje a expressão pode provocar estranheza e até uma gargalhada entre os mais novos. Mas para muitos portugueses continua ligada à voz das mães e das avós, a cozinhas de lume aceso e a uma época em que as receitas se aprendiam mais pelo ouvido e pelo paladar do que pelo papel.
Talvez por isso estas palavras mereçam ser recordadas.
Porque quando desaparece uma expressão destas, não desaparece apenas uma maneira de falar.
Vai-se também um pequeno pedaço da cozinha, da família e da memória portuguesa.
