QUEM SE LEMBRA DE BRINCAR AO “LÁ VAI ALHO”?

QUEM SE LEMBRA DE BRINCAR AO “LÁ VAI ALHO”?

🐑 “Lá Vai Alho”: quando a rua era o recreio e bastavam alguns amigos para inventar uma tarde inteira

A imagem recupera uma das brincadeiras de rua que marcaram a infância de muitas gerações: o tradicional jogo conhecido em várias terras como “Lá Vai Alho”, e noutras como “Salta Carneiro” ou “Salta Ovelha”. As regras podiam variar de região para região, mas a ideia principal era simples: alguns miúdos baixavam-se ou curvavam o corpo e os restantes tinham de saltar por cima deles, tentando fazê-lo sem cair nem derrubar quem servia de apoio.

Na fotografia, um grupo de crianças transforma um simples passeio junto a uma parede no seu campo de jogos. Não existem brinquedos caros, equipamentos próprios ou qualquer espaço preparado para brincar. Há apenas amigos, imaginação e uma regra que todos conheciam. Um dos rapazes já está no ar, pernas bem abertas, enquanto os outros se mantêm curvados à espera do salto seguinte. Junto à parede, algumas crianças observam, provavelmente aguardando a sua vez e comentando quem saltou melhor — ou quem quase acabou no chão.

Era uma brincadeira que exigia agilidade, equilíbrio e alguma coragem. Quanto mais habilidosos ficavam os jogadores, mais alto ou mais longe tentavam saltar. E, como acontecia em quase todos os jogos infantis daquele tempo, as regras eram discutidas no próprio local. Se alguém tocava com os pés em quem estava curvado, podia perder a vez. Se caía, levantava-se. Se havia dúvida sobre quem tinha feito batota, começava a discussão habitual até aparecer alguém a dizer: “Vá, outra vez, que essa não contou!”

Durante grande parte do século XX, sobretudo em bairros, vilas e aldeias onde o trânsito era reduzido, a rua funcionava como uma verdadeira extensão de casa. Ali se jogava ao berlinde, ao pião, às escondidas, à apanhada, à macaca e a dezenas de outras brincadeiras que podiam mudar de nome poucos quilómetros mais adiante. O essencial era haver crianças suficientes e algum espaço livre.

O “Lá Vai Alho” tinha ainda uma característica particular: praticamente não precisava de material. Não era necessário comprar bola, corda ou qualquer brinquedo. O próprio grupo fazia o jogo. Talvez por isso fosse tão acessível. Quem aparecesse podia participar, desde que tivesse pernas para saltar e aceitasse também a sua vez de ficar curvado.

Naturalmente, havia quedas. Joelhos esfolados, cotovelos riscados e roupa suja eram quase parte das regras não escritas. A proteção era muito diferente da atual e muitas crianças brincavam diretamente no empedrado, no passeio ou na terra. Isso não significa que fosse melhor ou mais seguro; significa apenas que fazia parte de um quotidiano em que brincar ao ar livre tinha um peso muito maior.

As tardes pareciam prolongar-se até alguém chamar da janela ou da porta:

— Ó rapaz, vem para casa que já são horas!

A resposta costumava ser:

— Já vou!

E esse “já vou” ainda dava para mais duas ou três rondas.

Com o crescimento das cidades, o aumento do trânsito e a mudança dos hábitos infantis, muitos destes jogos foram desaparecendo das ruas. Alguns sobrevivem em escolas, encontros tradicionais ou na memória de quem os praticou. Os nomes também continuam a revelar a enorme diversidade das brincadeiras populares portuguesas.

Hoje, esta fotografia vale precisamente por isso.

Não mostra apenas crianças a saltarem umas sobre as outras.

Mostra uma época em que um passeio, uma parede e meia dúzia de amigos eram suficientes para transformar uma tarde comum numa aventura inteira.