QUEM SE LEMBRA DE BRINCAR ÀS ESCONDIDAS ATÉ ANOITECER?
🙈 O jogo das escondidas — quando bastava uma árvore e meia dúzia de amigos para começar a aventura
Há brincadeiras que atravessaram gerações sem precisarem de brinquedos, dinheiro ou preparação. O jogo das escondidas, também conhecido em algumas regiões como pique-escondite, era uma delas. Bastava juntar meia dúzia de crianças, escolher uma árvore, uma parede ou um poste para servir de “pique” e decidir quem ficava a contar. A partir daí, começava uma das maiores aventuras da infância.
A imagem mostra precisamente esse momento. Uma criança mantém o rosto encostado à árvore, contando sem espreitar, enquanto as outras correm para procurar o melhor esconderijo. Uns iam atrás de um muro, outros para o lado de uma casa, outros ainda tentavam esconder-se atrás de árvores que mal tapavam metade do corpo. E havia sempre aquele que corria tanto para se esconder que acabava por denunciar aos outros exatamente para onde tinha ido.
A contagem tinha as suas próprias regras, muitas vezes diferentes de terra para terra. Havia quem contasse até dez, vinte ou cinquenta. Outros acompanhavam os números com uma frase conhecida de todos. O importante era dar tempo suficiente para os companheiros desaparecerem. Quando terminava, vinha o aviso que fazia subir a adrenalina:
— Prontos ou não, aí vou eu!
Nesse instante começava a verdadeira perseguição.
Quem procurava tinha de abandonar o pique e descobrir os esconderijos sem deixar a base completamente desprotegida. Porque o objetivo de quem estava escondido não era apenas não ser encontrado. Muitas vezes era preciso esperar pelo momento certo, sair a correr e chegar primeiro ao local combinado.
E então ouviam-se passos.
Gritos.
Risadas.
E alguém disparava em direção à árvore enquanto o outro vinha atrás.
Quando conseguia tocar primeiro no pique, a vitória era anunciada com toda a força que havia nos pulmões.
As discussões também faziam parte da brincadeira. Um dizia que tinha chegado primeiro. Outro jurava que tinha sido visto antes. Havia sempre alguém acusado de espreitar enquanto contava e outro que escolhia um esconderijo tão distante que demorava uma eternidade a aparecer.
Mas as zangas raramente duravam muito.
Recomeçava-se.
Escolhia-se outro para contar.
E toda a rua voltava a transformar-se num enorme território de esconderijos.
Durante décadas, sobretudo em aldeias, bairros e pequenas vilas, as crianças cresceram desta forma. A rua, o campo, o quintal e os terrenos próximos eram o seu espaço de brincadeira. Uma árvore podia ser o centro do jogo, um muro podia transformar-se num esconderijo e uma esquina podia representar a salvação.
Não era necessária tecnologia para criar suspense.
O silêncio de quem estava escondido já chegava.
A parte mais difícil era tentar não rir quando quem procurava passava mesmo ao lado sem perceber que alguém estava ali. Muitas crianças tapavam a boca com as duas mãos para segurar a gargalhada.
Depois havia aquele momento inesquecível: o jogador que estava escondido há tanto tempo que todos começavam a perguntar onde se tinha metido.
Às vezes tinha escolhido um esconderijo genial.
Outras vezes já tinha ido para casa jantar.
Com o passar dos anos, as ruas foram mudando. O trânsito aumentou, os hábitos familiares transformaram-se e grande parte das brincadeiras passou para dentro de casa ou para espaços específicos. O jogo das escondidas não desapareceu, mas perdeu muito daquela ligação espontânea às ruas e aos campos.
Hoje, uma fotografia destas lembra-nos algo muito simples.
Para criar uma aventura, não era preciso muito.
Uma árvore para contar, alguns amigos para procurar e espaço suficiente para correr.
E talvez seja essa a razão pela qual tantas pessoas ainda se lembram exatamente da rua, da parede ou da árvore onde gritavam:
— Um, dois, três… vou procurar!
