Mulheres da Nazaré — quando o mar também se carregava à cabeça

Mulheres da Nazaré — quando o mar também se carregava à cabeça

🌊 Mulheres da Nazaré — quando o mar também se carregava à cabeça

Quem viveu da pesca sabe que o mar nunca sustentou só os homens que iam dentro dos barcos. Cá na Nazaré, nos anos 50, havia muita mulher que começava o trabalho ainda antes de a embarcação tocar na areia. Esperavam junto à praia, de olhos postos no horizonte, tentando perceber pelo movimento do mar se os homens vinham bem, se a pesca tinha corrido de feição ou se naquele dia regressavam quase de mãos vazias. Quando os barcos chegavam, começava outra faina. Era preciso descarregar, separar, transportar e levar o peixe para onde pudesse ser vendido.

Lembro-me bem delas a atravessarem a areia descalças, com as saias levantadas o suficiente para não prenderem os passos e aqueles grandes cestos equilibrados na cabeça como se não pesassem nada. Mas pesavam. E muito. Às vezes iam carregados de peixe, outras vezes de redes, apetrechos ou aquilo que fosse necessário para a lida. Caminhavam direitas, uma mão levantada para ajudar a firmar o cesto, enquanto a outra ficava livre para equilibrar o corpo. Quem via de fora podia achar bonito. Quem conhecia a vida sabia que aquilo era trabalho duro, repetido todos os dias.

Havia uma mulher que me ficou na memória. Chamava-se Rosa, ou pelo menos era assim que todos a tratavam. O marido andava ao mar e ela fazia o resto. Quando a pesca era boa, ainda antes de o peixe arrefecer já ela estava a organizar tudo para a venda. Punha o cesto à cabeça e seguia pela areia, depois pelas ruas, chamando freguesia. Quando a pesca era fraca, a preocupação vinha-lhe estampada na cara. Porque naquele tempo não havia ordenado certo no fim do mês. Havia dias de abundância e havia dias em que o mar parecia fechar a mão.

As mulheres da Nazaré tinham uma força que não precisava de ser anunciada. Estava na maneira como aguentavam o peso, no modo como esperavam pelos homens quando o tempo virava e na rapidez com que passavam do medo ao trabalho assim que o barco encalhava na praia. Algumas ainda tratavam da casa, dos filhos e da comida depois de horas a andar com cestos às costas ou à cabeça. No dia seguinte começavam outra vez.

E o mar, esse, mandava em quase tudo. Quando estava manso, parecia amigo. Quando engrossava, punha toda a vila em respeito. Havia dias em que as mulheres ficavam paradas junto à praia a olhar para longe, quase sem conversar. Esperavam reconhecer uma vela, uma embarcação, um homem. Nessas horas ninguém precisava de dizer que a vida de pescador era perigosa. Via-se nos rostos de quem esperava em terra.

Também havia alegria, claro. Quando a campanha vinha boa, a praia enchia-se de vozes, cestos, peixe a brilhar e gente a negociar. Os homens falavam da faina, as mulheres discutiam preços e os miúdos andavam por ali a correr no meio de tudo. A Nazaré parecia viver ao ritmo da chegada dos barcos.

Hoje olho para fotografias deste tempo e penso que muitas vezes se fala dos pescadores, mas menos das mulheres que estavam por trás de toda aquela vida.

Elas não iam necessariamente para o mar.

Mas também carregavam a pesca nos ombros.

E muitas carregavam-na literalmente à cabeça, atravessando a areia com um cesto pesado, os pés nus e a dignidade de quem sabia que naquele dia, como em tantos outros, era preciso levar o sustento para casa.