Colchões de Folhelho. Dormíamos em cima do Milho e ninguém achava estranho

Colchões de Folhelho. Dormíamos em cima do Milho e ninguém achava estranho

🛏️ Colchões de Folhelho — Dormíamos em cima do Milho e ninguém achava estranho

Ainda me lembro bem daqueles colchões grandes, pesados e riscados, estendidos ao sol no meio do quintal.
Hoje, quem olha para esta fotografia pode pensar que as mulheres estão apenas a arrumar uma cama velha.
Mas não.
Estão a tratar de um colchão de folhelho, feito com as folhas secas que envolvem a maçaroca do milho. Era assim que muitas famílias aproveitavam aquilo que a terra dava, porque comprar colchões modernos estava fora do alcance de muita gente.

🌽 Nada se desperdiçava

Depois da colheita vinha a desfolhada.
As espigas eram separadas, o milho seguia para alimento e farinha, e as folhas mais limpas e secas eram guardadas. Em várias regiões portuguesas, esse folhelho era aproveitado precisamente para encher colchões; até os carolos das espigas tinham utilidade no lume.
Lá em casa também era assim.

As mulheres escolhiam o folhelho com cuidado, retiravam as folhas húmidas ou estragadas e deixavam as restantes secar bem ao sol. Depois abriam o colchão e começavam a enchê-lo à mão.

Era preciso distribuir tudo com paciência.
Mais para um lado, menos para o outro.
Uma apertava.
A outra puxava o tecido.
Depois atavam ou cosiam o colchão para o recheio não fugir durante a noite.

🛏️ A primeira noite era uma aventura

Quando o colchão acabava de ser cheio, ficava alto e duro.
Ao deitarmo-nos, fazia um barulho enorme:
“Crrr… crrr… crrr…”
Cada vez que alguém se virava, parecia que a casa inteira acordava.
Nos primeiros dias era preciso ajeitar o folhelho com as mãos e os joelhos, porque formava montes de um lado e covas do outro.
E não havia cá colchão ortopédico, espuma viscoelástica ou escolha de firmeza.

A firmeza era esta:
folhelho novo, costas direitas e não reclamar.

☀️ Todos os anos havia trabalho

Com o uso, o recheio começava a abater e a ganhar humidade.
Então chegavam os dias de sol forte.
Levava-se o colchão para o exterior, abria-se, retirava-se o folhelho antigo e sacudia-se tudo muito bem. O tecido era arejado e, quando havia milho novo, renovava-se parte ou todo o enchimento.

Nalgumas casas utilizava-se também palha de trigo ou outros materiais vegetais, sobretudo porque eram baratos, disponíveis e podiam ser substituídos pela própria família.

Era um trabalho pesado.
Mas fazia-se em conjunto.
Enquanto duas mulheres tratavam do colchão, outra preparava o almoço, as crianças andavam por perto e a conversa ia correndo.

🏡 Não era romantismo. Era necessidade.
Hoje é fácil olhar para estes colchões e dizer que antigamente tudo era mais bonito.
Não era.
Havia pobreza, trabalho duro e pouco conforto. Estes colchões existiam porque as famílias precisavam de aproveitar os recursos disponíveis e não tinham dinheiro para comprar outras soluções.
Mas também havia um conhecimento que se perdeu.
Sabia-se secar o folhelho, escolher o melhor, encher o colchão, ajustar as covas e fazê-lo durar mais um ano.
Não se deitava tudo fora ao primeiro problema.
Desmontava-se.
Limpava-se.
Consertava-se.
Voltava-se a usar.

❤️ O barulho que ficou na memória
Hoje durmo num colchão moderno, silencioso e confortável.
Mas confesso uma coisa:
Às vezes ainda me lembro daquele ruído do folhelho quando a minha mãe se virava na cama durante a noite.
Era um som áspero e pouco elegante.
Mas era o som da nossa casa.
O som de quem aproveitava tudo.
O som de uma época em que até as folhas do milho serviam para dar descanso a uma família inteira.
Os colchões eram mais duros. A vida também.
Mas havia sempre alguém disposto a sacudir, encher e coser tudo outra vez.

👇 Quem também dormiu num colchão de folhelho? Na vossa terra chamavam-lhe folhelho, palha de milho ou tinha outro nome?