Quem se lembra das Reguadas na Escola?

📏 “Estende a mão!” — Quem se Lembra das Reguadas na Escola?

Eu cresci no Alentejo num tempo em que a escola era muito diferente da de hoje.

A sala tinha carteiras de madeira, um quadro preto, cheiro a giz e um silêncio que não vinha apenas do respeito pelo professor.

Vinha também do medo.

Em cima da secretária estava quase sempre uma régua comprida. Não servia apenas para fazer linhas direitas nos cadernos. Quando alguém falava sem autorização, não sabia a tabuada, fazia mal o ditado ou se distraía a olhar pela janela, ouvia-se a ordem que nenhum de nós queria escutar:

“Venha cá e estenda a mão.”

E lá íamos nós, devagarinho, com o coração aos saltos.

A mão ficava aberta, com a palma virada para cima. Depois vinha a reguada: uma, duas ou mais, conforme a gravidade da falta e o humor de quem mandava.

Havia professores que batiam na palma da mão. Outros preferiam os nós dos dedos. Também existiam puxões de orelhas, ficar de pé virado para a parede ou ajoelhar no chão durante parte da aula.

Durante grande parte do século XX, os castigos físicos fizeram parte da experiência escolar de muitas crianças portuguesas. Há investigação histórica dedicada precisamente às punições usadas no ensino primário entre 1900 e 1960, recorrendo às memórias autobiográficas de antigos alunos.

🏫 Naquele tempo, ninguém discutia a autoridade

Quando chegávamos a casa com as mãos vermelhas, muitos pais não iam pedir explicações à escola.

Perguntavam primeiro:

“O que fizeste para merecer isso?”

E ainda corríamos o risco de receber outro castigo.

A palavra do professor raramente era questionada. O mestre era uma das principais autoridades da aldeia, ao lado do padre, do médico e do regedor.

Nós aceitávamos porque não conhecíamos outra realidade.

Isso não significa que fosse correto.

É fácil olhar para trás e dizer:

“Levámos reguadas e não morremos.”

Mas essa frase esconde parte da verdade. Alguns miúdos aprenderam disciplina; outros aprenderam apenas a ter medo, a esconder os erros e a evitar fazer perguntas. Sobreviver a uma prática não prova que ela fosse educativa ou necessária.

Portugal passou a excluir os castigos corporais das sanções escolares permitidas em 1977, e a legislação atual não admite tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes no contexto educativo.

✏️ Aprender com medo não é o mesmo que aprender com respeito

Eu ainda me lembro da régua a bater na madeira antes de bater na mão.

Era um aviso.

A sala ficava imediatamente calada.

Mas hoje percebo uma coisa que, em criança, não conseguia explicar: silêncio não significa necessariamente atenção, e obediência não é o mesmo que aprendizagem.

Uma escola precisa de regras, consequências e respeito pelos professores. Sem isso, transforma-se em confusão. Mas autoridade não exige violência.

A disciplina pode ser firme sem humilhar nem magoar.

A Convenção sobre os Direitos da Criança, ratificada por Portugal em 1990, ajudou a consolidar uma visão da escola centrada na proteção, na dignidade e na participação das crianças.

🕰️ Uma memória que não deve transformar-se em saudade cega

Tenho saudades da escola pequena, dos cadernos de duas linhas, das ardósias, da tinta permanente e dos recreios cheios de jogos.

Mas não tenho saudades de ver um colega a chorar em frente à turma.

Recordar o passado não obriga a fingir que tudo era melhor.

Algumas coisas merecem ser preservadas: o respeito, a responsabilidade, o esforço e a importância dada ao professor.

Outras devem ficar onde pertencem: no passado.

A velha régua serviu para ensinar contas e medir linhas.

Nunca deveria ter servido para medir o medo de uma criança.

👇 Na vossa escola também havia reguadas? Eram dadas na palma da mão, nos dedos ou havia outro castigo que nunca esqueceram?