A Carrinha da Gulbenkian. Quando os livros iam à nossa procura

A Carrinha da Gulbenkian. Quando os livros iam à nossa procura

📚 A Carrinha da Gulbenkian — Quando os Livros Iam à Nossa Procura

Há imagens que não precisam de som para nos fazer ouvir o passado.

Quando vejo uma destas velhas carrinhas carregadas de livros, volto logo às pequenas terras do meu Alentejo, num tempo em que uma biblioteca podia estar a dezenas de quilómetros de distância… mas os livros acabaram por vir ter connosco.

Nós chamávamos-lhe simplesmente:

“A carrinha da Gulbenkian.”

E quando se sabia que estava para chegar, aquilo era acontecimento.


🚐 “Olha, já vem a Gulbenkian!”

Ainda me lembro de nós, rapazes, vermos a carrinha ao fundo da estrada. Não era o padeiro. Não era o médico. Não era nenhuma autoridade.

Eram livros. Livros que vinham ao nosso encontro.

Dependendo da rota, havia terras que esperavam dias ou semanas pela próxima passagem. E aquela espera aumentava ainda mais a ansiedade de trocar o livro que tínhamos acabado por outro que nos levasse para um mundo completamente diferente.

As Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian começaram a funcionar em 1958 e constituíram uma rede destinada precisamente a aproximar a leitura das populações portuguesas com menor acesso à educação e à cultura. O serviço manteve-se, em diferentes formatos, até 2002.


📖 Entrávamos numa carrinha e saíamos noutro mundo

Aquilo para nós era uma maravilha.

As prateleiras estavam cheias.

Romances, histórias de aventuras, livros infantis, ciência, história, livros para estudar…

Podíamos olhar.

Escolher.

Perguntar ao homem da biblioteca:

“O senhor acha que este é bom?”

E ele aconselhava.

Não era preciso ser rico.

O princípio do serviço assentava no livre acesso aos livros, empréstimo para levar para casa e gratuitidade, procurando chegar especialmente às populações com menor acesso aos bens culturais.

Hoje parece uma coisa normal.

Naquele tempo, para muitas pessoas das aldeias, não era.


🌾 No Alentejo, aquela carrinha abriu muitas janelas

A rede chegou também profundamente ao Alentejo.

A cronologia oficial da Fundação regista bibliotecas itinerantes em localidades como Castro Verde, Mértola, Cuba, Estremoz, Moura, Montemor-o-Novo e Portalegre. A Biblioteca Itinerante n.º 35 de Portalegre começou a funcionar em outubro de 1961.

Para perceber o que isto representava é preciso lembrar o Portugal rural daquele tempo.

Havia pequenas aldeias onde os livros eram poucos.

Em muitas casas encontrava-se o missal, algum almanaque, livros escolares dos filhos e pouco mais.

Por isso aquela carrinha não transportava apenas papel.

Transportava possibilidades.

Um rapaz que nunca tinha visto o mar podia ler uma história passada num navio.

Uma rapariga de uma aldeia pequena podia conhecer Lisboa, África ou outros países sem sair de casa.

E um trabalhador que mal tivera oportunidade de estudar podia continuar a descobrir coisas pela leitura.


❤️ Havia crianças à espera… mas também adultos

Nós, miúdos, éramos talvez os mais impacientes.

Queríamos aventuras.

Índios e cowboys.

Viagens.

Histórias de mistério.

Mas também apareciam homens e mulheres.

Uns procuravam romances.

Outros livros relacionados com agricultura, história ou assuntos que simplesmente lhes despertavam curiosidade.

Em Redondo, onde a tradição itinerante sobreviveu através do município, moradores ainda recordam como antigamente as pessoas corriam quando viam a biblioteca chegar. Um utilizador dos anos 1980 descreveu a passagem da biblioteca pela sua aldeia como um dos grandes momentos da semana.

Isto diz praticamente tudo.


📚 Branquinho da Fonseca teve uma ideia simples e extraordinária

Por detrás desta história esteve o escritor Branquinho da Fonseca, criador e diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Gulbenkian em 1958.

A ideia era simples:

Se muitas pessoas não conseguiam chegar aos livros…

então eram os livros que tinham de chegar às pessoas.

As primeiras bibliotecas móveis começaram com 15 carrinhas e a rede cresceu rapidamente. No início dos anos 1960 já se estendia ao interior do país.

Muitas das carrinhas que ficaram famosas eram Citroën HY, adaptadas com estantes para funcionarem como pequenas bibliotecas sobre rodas.


🕰️ Depois vinha a parte mais difícil: esperar que voltasse

Escolhíamos o livro.

Levávamo-lo para casa como se fosse uma coisa preciosa.

E começávamos logo a ler.

À noite.

Ao domingo.

Depois do trabalho.

Debaixo dos cobertores.

Quando acabávamos demasiado cedo, vinha o problema:

a carrinha ainda demorava a voltar.

Então relíamos algumas páginas.

Emprestávamos o livro a um irmão.

Falávamos da história com os amigos.

E quando finalmente chegava o dia da nova visita, lá íamos devolver aquele e escolher outro.

Em alguns serviços locais herdeiros dessa tradição, os leitores recordam precisamente este ciclo de receber livros, lê-los e devolvê-los na visita seguinte.


🏡 Não era apenas uma biblioteca. Era uma visita do mundo exterior.

Hoje temos livros no telemóvel.

Podemos comprar um romance sem sair do sofá.

Temos bibliotecas modernas, Internet, audiolivros e milhões de páginas disponíveis em segundos.

Ainda bem.

Mas naquela época uma carrinha estacionada no largo conseguia fazer uma coisa extraordinária:

punha uma aldeia inteira a falar de livros.

O bibliotecário conhecia os leitores.

Sabia quem gostava de romances.

Quem queria livros de aventuras.

Quem precisava de alguma coisa para estudar.

E muitas vezes a conversa também fazia parte da visita.

Ainda hoje, em Redondo, a biblioteca itinerante mantém essa dimensão de proximidade, levando livros mas também companhia a populações mais isoladas.


❤️ Uma carrinha que carregava muito mais do que livros

Quando olho para esta fotografia, não vejo apenas um veículo antigo.

Vejo pessoas à espera.

Vejo crianças curiosas.

Vejo homens que tinham passado o dia a trabalhar e ainda procuravam alguma coisa para ler.

Vejo mulheres que levavam um romance para casa.

E vejo uma geração que descobriu que o mundo era muito maior do que a rua onde tinha nascido.

A Gulbenkian colocou livros dentro de uma carrinha.

Mas aquilo que verdadeiramente distribuía pelas aldeias era outra coisa:

curiosidade.

conhecimento.

imaginação.

E, para muitos de nós, a vontade de continuar a aprender.

Hoje já não fico à espera daquela carrinha.

Mas ainda sinto a mesma coisa quando abro um livro novo.

Porque há viagens que começam numa estrada…

e outras começaram dentro de uma velha carrinha da Gulbenkian estacionada no largo da nossa terra.

👇 Quem ainda se lembra da carrinha da Gulbenkian chegar à sua aldeia? Que livros levavam para casa? Digam-nos também de que terra são.